quinta-feira, agosto 26, 2004

impossível

todos queremos o impossível... é pena que o impossível não nos queira a nós...

terça-feira, agosto 24, 2004

quão fria é a solidão

Quão fria é a solidão
Se não encontro a tua mão.
Quão triste o luar
Se não encontro o teu olhar
Quão roucas as palavras
Quando se gritam no nada
No vazio que encontrei
Se te não tenho e tanto te amei
Quão loucas as horas
Que partilhámos nas demoras
De incertas madrugadas
Que viviamos em pequenos nadas
Que noite tão escura
Tão longa que perdura
Pelos dias de deserto
Se te não tenho por perto...
Vem, Anjo meu, vem
Não digas a ninguém
Vem como uma brisa
Leve, como quem pisa
Um suave manto em flor
Vamos para sempre dizer: Amor.

Coimbra, 2002

terça-feira, agosto 17, 2004

dos olhos

Dos olhos
Caem-me gotas
Que, de solidão,
Se misturam
Com as que o céu chora
E que recordam juntas
Amargas
Aquela hora
Em que,
Separando águas,
Unimos nossas mágoas
Num rio,
Frio, tão frio...
Alvo e sombrio
Era o luar
Que fez com que,
Dos olhos
Gotas salgadas
De tristeza amarguradas
Se misturassem
Eternamente
Com aquelas
Que dos teus olhos
Fugiram também
Ao encontro da eternidade,
Nossa, de mais ninguém.
Separamo-nos...
Unidos...
Por esse rio,
De lágrimas...
Frio...
Tão frio...

coimbra, 2002

terça-feira, agosto 10, 2004

cinco sentidos

Quero ter-te.
Agora, ou antes
sentir-te com o meu ser.
E ser, contigo
Tudo o que eu puder:

Quero olhar-te,
como quem olha
A paisagem mais misteriosa
E mais gloriosa,
E seguir os teus movimentos
De ave livre,
Que destrona o azul imenso.

Quero ouvir-te,
O som inquieto do teu ser
Até ensurdecer
Com a leve melodia que emanas,
Como sons de harpas celestiais,
Desfrutar da canção
Que és
E que eu peço mais.

Quero o teu odor
De flores de campo
De floresta enevoada
Pela madrugada
Fresca, prateada,
De maresia vespertina
Solta no ar
Que ninguém domina.

Quero saborear-te
E abandonar-me aos prazeres
De sumarentas
Frutas doces
Maduras de Estio,
De iguarias matinais
Que alio ao que sou.

Quero tocar-te
Como a um tesouro
Que acabei de encontrar,
Como ao mais delicado tecido
E descobrir os mais secretos
Fenómenos,
E percorrer-te
Inteira.

Quero despertar
Ter-te aqui
E sentir
E sentir
E sentir...

Quero-te...


Guarda, Abril 2004

sexta-feira, agosto 06, 2004

ser o outro

Nunca poderei estar na mesma situação do outro, por mais que tente.
Não é possível estar na mesma circunstância seja de quem for.
Mesmo que queira, nunca conseguirei preencher o mesmo espaço do outro.
E mesmo que consiga sentar-me na mesma cadeira, nunca conseguirei ocupar o mesmo espaço de tempo.

Não posso ser o outro...

quinta-feira, agosto 05, 2004

da boca

Da boca
Saem-me palavras
Sofridas
Que contam
De duas vidas
Como se cruzaram
E eternamente
Se separaram
Para nunca mais
Se perderem de vista.
Palavras, talvez,
Que um pianista
Segredaria
Nas teclas
Frias
Alvas e sombrias,
Em melodias
Que irão ecoar
Pelo ar
Que nos separa
E teimosamente
Mente
Para nos unir...
Um dia...
Para sempre.

Coimbra, 2002

quarta-feira, agosto 04, 2004

insensível

vi-te passar insensível ao meu sorriso, esboçado apenas para ti, mas que toda a gente via... menos tu...

vi-te, espelhada, na lagoa desse mar tão calmo e tão traiçoeiro das palavras que nunca existirão entre nós, e, com o tempo, irão ser nada mais que um pântano de sentimentos estagnados...

vi-te passear entre as pedras, gastas, sujas e ignoradas, e senti-me entre elas, sufocado pela tua indiferença...

vi-te, insensível ao tempo e espaço que te rodeava... que era eu...

vi-te, mas já não quero voltar a ver-te... estou insensível...

Coimbra, 2001

terça-feira, agosto 03, 2004

o rosto

Vou esconder o rosto na imensidão da gente que passa, supostamente viva, e perguntar-me

porque é que eu não consigo ver o meu próprio rosto?... é meu, que diabo!, devia conseguir vê-lo, sem recurso a qualquer artefacto...

Sendo assim... vou escondê-lo, o rosto.